
O peso da vida
Tento não crer nessa tristeza que me abala. Já são muitos os motivos para sofrer. Tá pensando que é por coisas externas, como a falta de minha mãe? Não, absolutamente. Perdi-a, como perdi o meu pai, num acidente de trânsito, ainda na infância. Fui criado por uma tia pobre e carrasca. Ela se satisfazia em me ver padecendo. A comida era fracionada. Seus filhos comiam mais. Nunca fui com a cara de nenhum, todos bandidos, literalmente; são assaltantes finos. Perdi o contato com eles quando o mais velho foi preso, em outro estado. Também não faço questão de tê-los por perto. Na verdade, é um grande alívio não ver titia e os seus filhinhos, que para ela não têm nenhum defeito. Disseram-me para procurar ajuda psicológica, e ri disso, porque ninguém vai saber o que sinto por dentro. Mesmo que eu fale, eles estarão passivos, esperando a minha melhora. Por que sei disso? Porque já fui a um par de psicólogos que me relegaram à sorte da insanidade. Tenho problemas com o que mora dentro de mim. Muitas vezes me acocoro ou me deito no chão para passar a ânsia da dor que me invade – é uma alternativa que me dá um pouco de consolo; e o faço em locais diversos, mesmo no shopping, quando fui pela última vez, há dois anos. Tenho medo dessa solidão, que não tem por quê. Já tive amigos, mas os perdi com o tempo, com a minha modorra, com o meu pouco-caso, por que estava preocupado com as minhas loucuras, com as necessidades geradas por um país capitalista. Mas como poderia trabalhar, se não me dava bem com gente? Sim, tenho muito medo de gente. Um médico, amigo da família, numa simples olhada, disse que eu era bipolar e fóbico. Saí arrasado do consultório. Como pode uma irresponsabilidade tamanha de sequer me ouvir?! Ele não me escutou, tirou o parâmetro por causa do meu histórico familiar, principalmente do meu pai, que era atendido por ele. Não me deu perspectiva nenhuma, maldito. Morreu na covid, com os bolsos estufados de dinheiro e soberba. Sinto muito, mas não sei mais quem sou. Perdi-me em desalinhos, em desconexões da minha mente atulhada de sentimentos vazios. Um único amigo que me restou disse que eu era capaz, que podia superar essa dor. Sei que tenho apoio moral, por causa dele; ele me salva nos momentos mais difíceis. Mas suas palavras, às vezes, se perdem no ar, como se ele estivesse falando com o nada, com o limbo do meu ser. Sou um homem triste do fim dos tempos. Não me acalanto com qualquer pegada. Nenhum evento social me agrada. Na verdade, como disse, me dá um medo desesperador. Quero fugir, e, quando não consigo, vou ao banheiro e passo o tempo necessário para me restabelecer minimamente. Evito os eventos sociais. Nilo, meu amigo, disse que preciso enfrentar, mesmo com medo, e o faço por ele, em encontros na sua casa, onde reúne a patota da infância. É o único momento que sinto ser possível, mas logo, no outro dia, recai sobre mim o peso da vida.













